“A história do Sintect-MG é a história de um período de muitas lutas no movimento sindical brasileiro”

Entrevista com o presidente do Sindicato dos Trabalhadores dos Correios de Minas Gerais (Sintect-MG), Robson Silva, e o secretário-geral, Pedro Paulo de Abreu Pinheiro. Eles vão falar sobre a história do sindicato que está este mês comemorando 25 anos de fundação e tem uma importância histórica para a luta da categoria ecetista
25 anos de luta – Pedro Paulo de Abreu Pinheiro e Robson Silva

Vocês acabam de comemorar 25 anos de fundação do Sindicato dos Trabalhadores dos Correios de Minas Gerais. Podem contar um pouco dessa história e também do processo de formação da categoria nacionalmente?

Pedro Paulo: Bem, a história do Sintect-MG é a história de um período de muitas lutas no movimento sindical brasileiro, na década de 1980. No início, até a Constituição Federal em 88 nós não tínhamos direito de ter esse sindicato, assim como os trabalhadores das empresas estatais. Com o movimento, a construção da Central Única dos Trabalhadores (CUT), o crescimento das lutas, criou-se um clima de muita efervescência. Em plena ditadura militar, as reivindicações pelas Diretas Já e uma série de outras questões, os trabalhadores exigindo direito de greve, aconteceu em São Paulo as lutas no ABC e também em Belo Horizonte, no setor metalúrgico. E nós também já em 79, fizemos uma greve de dois dias, que é o marco da reorganização das lutas dos trabalhadores dos Correios.

Aí veio uma repressão muito grande, os dirigentes [do movimento] foram quase todos demitidos. Em 1985, nós começamos a organizar as associações civis, pré-sindicais [muitos ainda estavam demitidos]. De lá pra cá nós tivemos vários embates com a empresa, tivemos várias conquistas no terreno sindical e aproveitamos a Constituinte para fazer pressão para que tivéssemos direito de sindicalização.

A partir de 5 de outubro, com o advento da Constituição Federal, nós conseguimos esse direito, depois de várias greves. E em meados de outubro nós legalizamos juridicamente, legalmente, o Sintect-MG, que já era um sindicato com nome de associação.

A partir daí começamos a organizar também a constituição da Federação, porque nos Correios, como é uma só categoria, o nosso patrão é o governo, o correto era ter havido um único sindicato nacional. Mas como tinham 35 associações, porque o Correio era dividido em 35 diretorias regionais, então nós construímos a Federação [Fentect-Federação Nacional dos Trabalhdores dos Correios] pra que ela pudesse unificar a luta da nossa categoria.

De lá pra cá essa luta se ampliou nos mais variados matizes do terreno sindical. Então a história basicamente é daquele período lá atrás da construção da CUT, das grandes greves que ocorreram no Brasil.

A base desse movimento, então, foi justamente a greve de 79, que foi iniciada em Minas Gerais?

Pedro Paulo: É. A base na nossa categoria da construção do sindicato e também da luta nacional foi a greve dos dias 13 e 14 de agosto de 1979. No mesmo período em que a Mannesmann, a Belgo-Mineira, seguindo o exemplo da luta dos trabalhadores de São Bernardo, do ABC [em São Paulo], também fizeram paralisações. Nós fizemos uma grande greve de dois dias passando por cima da ditadura militar e na marra fizemos nossa história, dando um passo adiante na construção do nosso sindicato e na defesa do direito de greve.

Nesse período tem também uma história de perseguição muito grande, de demissões, contra os grevistas, sindicalistas…

Pedro Paulo: O Correio sempre foi um braço do governo. O SNI [Sistema Nacional de Informação] era todo organizado dentro dos Correios. Tudo no campo das informações, na área de comunicações era via Correios. Então, todos os militantes, em 79, que organizaram aquele movimento, foram sumariamente demitidos, enquadrados na Lei de Segurança Nacional e a perseguição não parou. Essa é a Lei que agora o governo de São Paulo quer usar contra as manifestações de rua. Eu mesmo fui demitido três vezes nos Correios. Fiquei suspenso por vários anos, fui enquadrado na Lei de Segurança Nacional, fichado na Abin [Agência Brasileira de Inteligência]. Lembro que em São Paulo, em 1985, foram mais de três mil trabalhadores demitidos. No Rio de Janeiro também foi uma porção imensa, e em Minas Gerais foram mais de 700. Quer dizer, a história da nossa categoria é uma história de milhares de trabalhadores demitidos para que nós conseguíssemos o direito de sindicalização, o direito de construir sindicato. Por exemplo, o Correios Saúde, que é uma conquista muito importante para quase 500 mil pessoas entre trabalhadores e dependentes, o tíquete refeição, cesta básica… para garantir todos esses benefícios teve muita gente demitida, muita gente foi presa. É uma história de muita luta da nossa categoria, passando por cima da burocracia sindical… Quer dizer, a categoria dos Correios, se nós fizermos uma análise mais aprofundada da história da classe trabalhadora no Brasil, da década de 80 pra cá, será sem sombra de dúvidas uma das mais aguerridas, uma das categorias mais combativas…

Fruto dessa luta são as conquistas e também as perseguições. E o nosso sindicato como sendo uma entidade que sempre lutou contra a burocracia na defesa intransigente dos interesses dos trabalhadores, é muito policiado pela empresa. Tanto que o próprio site do Partido da Causa Operária, da Corrente Ecetistas em Luta, organizações que tem a ver com a história do movimento dos Correios são todas vistas e revisadas pelas chefias dos Correios em todo Brasil, pra que eles possam fazer um combate sob medida em relação às nossas veiculações, as nossas informações e a nossa organização na base da categoria.

Nesse sentido, qual é a importância do sindicato para os trabalhadores, a entidade sindical, no sentido da organização, da luta dos trabalhadores?

Pedro Paulo: O sindicato não existia. Então os trabalhadores não tinham como negociar suas reivindicações, o poder de compra, o valor do poder de compra dos seus salários, com o Ministério das Comunicações. Antigamente, era o Antônio Carlos Magalhães, na época da ditadura, quem fazia aquela demagogia de repassar os reajustes. E depois, já com o sindicato, ele mesmo negociava, era uma coisa mais direta com o Ministro das Comunicações. O sindicato visa organizar o conjunto dos trabalhadores para a defesa de toda a classe e, sobretudo, do poder de compra dessa classe. Esse é o principal objetivo da construção do sindicato. Porque o sindicato não pode ser compreendido como uma diretoria, como um ou outro militante, mas como todos os trabalhadores que têm um interesse comum, que é defender o seu poder de compra, seu salário. E também lutar por melhores condições no ambiente de trabalho, vida mais digna para sua família.

Quer dizer, esses interesses, o baixo salário, as péssimas condições de trabalho, uma empresa como o Correio que tem assaltos constantemente, e os patrões não dão a mínima, onde tem uma produtividade altíssima, uma exploração brutal, uma opressão, assédio, então, o papel do sindicato é pegar todas essas reivindicações e criar uma consciência crítica nos trabalhadores para que o trabalhador possa se entender como sujeito dessa luta e participar dela no sentido de fortalecer o conjunto da categoria.

Nós somos uma única categoria nacional, tem uma única luta, então temos que ter os trabalhadores todos filiados para fortalecerem essa luta. O sindicato também tem um aspecto de formação política, e isso é muito importante. Faz o debate sobre as questões políticas e econômicas, nacional e internacionalmente e também procura discutir problemas específicos, por exemplo, a comissão interna de prevenção de acidentes, e defesa dos direitos. Especialmente em se tratando dos Correios, cujo patrão é o governo, então trata-se de uma uma luta eminetemente política. Além de termos um conjunto de advogados para fazer a defesa dos trabalhadores quando necessária, também dos familiares dos trabalhadores…

Atuamos ainda, não só nessa parte que é a mais importante, mas também no entretenimento. Nós temos uma Colônia de Férias; temos convênio com clube de recreação; fazemos torneios; uma série de atividades. Isso tudo é bom para integrar a categoria. No entretenimento também discutimos os problemas existentes na categoria de uma maneira mais tranquila, para que possamos depois, no dia a dia, jogar peso na mobilização dos trabalhadores contra a ingerência patronal.

Hoje o Sintect-MG é o maior sindicato da Fentect (Federação Nacional dos Trabalhadores da ECT). Qual a importância disso?

Robson: É exatamente isso, hoje o Sintect-MG é o maior sindicato filiado à nossa Federação nacional da categoria, e em um momento muito importante, porque estamos no marco de uma luta em que os sindicatos divisionistas estão querendo dividir o movimento para enfraquecer a luta dos trabalhadores. Tem aí uma ala, que é do PCdoB/CTB, que já tem uma organização que vem guardada debaixo do pano há muito tempo, que é a Findect, uma outra federação que veio pra dividir a luta nacional da categoria. Uma federação que foi chamada pelos trabalhadores de paraguaia, porque não tem registro sindical e, portanto, é ilegal, e não pode negociar em nome de nenhum trabalhador ecetista.

Como o companheiro Pedro Paulo falou, a união da categoria, lá atrás, na discussão da formação do sindicato, o próprio debate da fundação da Federação, é para ela funcionar como se fosse um sindicato nacional da categoria, porque não tem sentido ter 35 sindicatos negociando, sendo que do outro lado tem um patrão só. Fica mais fácil para a empresa fazer a negociação por debaixo do pano e corromper vários sindicatos, presidentes de sindicatos, para poder assinar o acordo coletivo em favor da empresa se a categoria estiver dividida. Então, nossa Federação Nacional, representa um sindicato único da categoria, que é o que deveria existir e é o que nós defendemos como unidade nacional da categoria.

O Sintect-MG como o maior sindicato da Federação foi justamente sindicato que ajudou a dirigir a vitória no último Contect, de Fortaleza em 2012. Porque a Federação já vinha na mão do próprio PCdoB/CTB, da Articulação Sindical/PT, há muito tempo. E todos sabem, não é segredo para ninguém, que o nosso sindicato além de fazer o trabalho em Minas Gerais faz um trabalho nacional, de organizar oposições, e faz isso através da Corrente Nacional Ecetistas em Luta. Então, o nosso trabalho é muito maior. E possibilitou uma importante contribuição para a vitória da oposição no Congresso da categoria para mostrar que é possível derrotar a burocracia do PT, do PCdoB nas direções sindicais. Daí a importância de ter um sindicato mais forte, em prol da conquista dos direitos da categoria nacionalmente, em prol da luta, que ta aí evidente no dia a dia.

Especialmente nesse processo de traição, o acordo bianual, agora a história dos tribunais, da ingerência dos tribunais sobre as greves, a campanha da categoria…

Pedro Paulo: Inclusive com o apoio do PSTU, não podemos deixar de destacar.

Robson: O movimento sindical vem de um refluxo muito grande. Da época que o companheiro Pedro Paulo falou, da época de efervescência, época de luta, na década de 80, passou-se à década de 90. Um período de refluxo até o inicio dos anos 2000 e depois, com essa história das traições, a cooptação de vários dirigente sindicais para a direção da empresa e também em várias outras empresas, não só na categoria de Correios. Hoje nós vemos que a cooptação de dirigentes sindicais é uma arma que o governo usa contra os trabalhadores, mas o que podemos ver é o seguinte; dentro do Sintect-MG não teve histórias desse tipo, foi um sindicato que resistiu a tudo isso.

O companheiro Pedro Paulo, por exemplo, companheiro da fundação das associações, que não fundou só a associação e o sindicato de Minas Gerais, é bom também deixar claro, mas também ajudou a fundar vários sindicatos no Brasil inteiro além da Federação Nacional, é um companheiro que se manteve na luta todo esse tempo, sem trair a categoria. Agora, por outro lado, a categoria fica confusa, desconfiada, porque você tem hoje do lado da empresa vários ex- sindicalistas, como na Campanha Salarial do ano passado. Luiz Eduardo, do Ceará (PCdoB), como é o caso do próprio Hernani (PT), do Rio de Janeiro, e vários outros diretores regionais, como Nilson Rodrigues (MRL/PT) do Paraná, que assumiu um cargo na empresa traindo os trabalhadores na PLR em 2011, e entrou com um processo na justiça contra um companheiro de luta do Paraná. Esse Nilson está tentando penhorar a casa do companheiro carteiro. Ele não só traiu a categoria como agora quer usar o sindicato, como na época usou o sindicato para abrir o processo contra o trabalhador: um pelego. Hoje ele coordena um setor em São Paulo Interior, e a categoria ficou na mão lá. Assim como o Nilson, vários outros assumiram cargo na empresa. Então o trabalhador fica sim desconfiado. Mas nós temos que mostrar que o nosso sindicato é um sindicato de luta, que se manteve firme diante de todas essas pressões. É o sindicato que mais sofre pressão da empresa, posso dizer claramente aqui, eu milito pela corrente Ecetistas em Luta, sou militante do Partido da Causa Operária e nenhum sindicato sofre pressão como o de Minas Gerais, porque todos sabem que o Sintect- MG é o sindicato mais forte, nesse nível de oposição.

Tem influência sobre os outros estados…

Robson: Tem influência sobre os trabalhadores de base de outros estados, porque é um sindicato de luta. Então, essa é a importância de fortalecer o Sintect-MG, um sindicato que não vai lutar só pelas questões pontuais da categoria, mas vai travar uma luta geral, para garantir avanço das conquistas da categoria.

Pedro Paulo: Eu só quero enfatizar que essas traições do movimento sindical somam quase 700 sindicalistas que traíram os trabalhadores para receber cargos de dez, quinze, vinte mil reais da empresa. Isso nós repudiamos. E eu acho que o objetivo do Sintect-MG é o de cada vez mais preparar os trabalhadores para passar por cima de todos esses traidores, que eles são uma corja bem pior até do que outros dirigentes da empresa que tinham se escondido atrás de um plano de cargo, carreira e salário para se projetar. Os traidores foram escolhidos a dedo dentro do movimento sindical. Então, a categoria e a corrente Ecetistas em Luta tem que deixar um recado bem claro, nós não vamos perdoar, sobretudo esse tipo de traição, porque isso é uma tentativa de barrar, de frear, de emperrar a luta dos trabalhadores.

Nós vamos lutar intransigentemente até passar por cima dessa burocracia sindical e desses traidores e trazer de volta todos os sindicatos que hoje estão tentando dividir o movimento, trazer os trabalhadores de São Paulo, Rio de Janeiro, e outros sindicatos pequenos como Tocantins, porque a categoria é que é dona desses sindicatos, é ela quem deve colocar na ordem do dia os pontos que tem que ser encaminhados em defesa dos seus próprios interesses. É inadmissível esse tipo de traição e nós não vamos aceitar.

Então, o Sintect-MG, a Corrente Nacional Ecetistas em Luta vai fazer o máximo de esforço possível para que nós possamos resgatar esses sindicatos para as mãos dos trabalhadores e organizarmos uma única luta nacional. Porque não tem sentido: se é um só o patrão, que é o governo, a Dilma Rousseff hoje, se somos uma só categoria, temos que ter uma só luta nacional.

Então fortalecer o sindicato, é fortalecer toda essa luta…

Pedro Paulo: É imprescindível. Quanto mais trabalhadores estiverem filiados mais força para essa luta. E também o processo de fazer a filiação leva ao embate político, ideológico, mostra para o trabalhador a necessidade de construir o sindicato como uma ferramenta de luta dele. Esse é o nosso objetivo maior.

E nós, acreditamos que a nossa categoria, que já é bastante sindicalizada ampliará ainda mais sua adesão. Inclusive tem muita gente nova chegando e nós precisamos ir nessa juventude trabalhadora, que é o futuro de todos nós da classe trabalhadora.

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